A “quase inútil” Estação de Tratamento que querem construir em Camboriú

Está sendo divulgado amplamente e com um ar de salvação da pátria, o projeto protocolado pela prefeitura de Camboriú que cede uma área de 5,4 mil metros quadrados para a implantação de uma Estação de Tratamento de Água (ETA) da Águas de Camboriú.

Antes de mais nada, é necessário alertar que o Projeto de Lei 008/2021, encaminhado pela prefeitura, não aparece no site da Câmara de Vereadores, embora já esteja em tramitação e, de acordo com a empresa e a prefeitura, já foi aprovado na Comissão de Justiça e Redação. Recebi a informação que só aparece depois de votado. Ou seja, total falta de transparência. 

Tive acesso ao texto da PL que está na Câmara e para explicar o porquê do “quase inútil”, quero antes trazer algumas informações importantes sobre o projeto.

O Projeto

A estação, que está prevista no contrato feito em 2015, é pregado pela concessionária como a “solução” para a falta de água no município. E pior, tem gente que acredita.

A área que a prefeitura quer entregar para a concessionária, fica ao lado da obra parada de uma escola no Jardim Europa. Local sofreu com os alagamentos recentes naquela região e ficou completamente embaixo da água.

Curiosamente, o local fica a poucos metros do Rio Camboriú, onde a água será captada. A escolha do local provocaria uma economia de milhões de reais para a empresa, pois não teria a necessidade de criar quilômetros de rede adutora de água bruta, caso o terreno fosse longe do rio.

Teoricamente, a empresa teria que criar uma adutora de água tratada até o reservatório mais próximo que fica a 3,3km do local. Teoricamente pois a empresa trabalha muito pouco com reservatórios e alimenta a rede através de bombas (booster). Vou falar disso mais abaixo.

O investimento previsto pela empresa é de 15 milhões de reais com uma capacidade de tratar aproximadamente 70 litros por segundo.

Hoje

A Águas de Camboriú hoje compra água tratada da EMASA, ao valor de R$ 1,67 o metro cúbico e revende a R$ 3,20 (residencial até 10m3) ao consumidor final de Camboriú. Para empresas fica mais salgado, sendo R$ 4,67 para um consumo de até 10m3/mês.

Pelo contrato, a Emasa deve fornecer para a Águas de Camboriú o mínimo de 180 litros por segundo, mas fornece geralmente de 210 a 240 litros por segundo. A Emasa NUNCA deixou de fornecer o contratado. Nem mesmo nas piores estiagens ou picos de verão, a Emasa sempre forneceu o que estava em contrato. Isso é garantido através de relatórios da própria Emasa.

Portanto, água tratada nunca foi o problema no abastecimento de Camboriú.

Quase inútil 

Levando em consideração que a demanda do município é de aproximadamente 230 litros por segundo e a ETA pretende tratar 70 litros por segundo, outros 160 litros por segundo continuarão sendo comprados da Emasa.

Embora quando questionada sobre as vantagens da ETA, uma diretora da Águas de Camboriú tenha dito que a mesma atenderia 1/3 da demanda e geraria uma economia no mesmo montante de 30%, o papo é mentiroso. Dificilmente essa “economia”, se houver, será repassada ao consumidor final.

Custo

Uma ETA tem um custo de operação e seria ingenuidade demais pensar que seria irrisório ao ponto de não ser contado nessa “economia”, afinal, quanto menor a Estação, mais alto é o custo por litro de água tratada. Alguém considerou isso?

Uma estação que trata 70 litros por segundo, tem a METADE da capacidade que a ETA construída pela mesma empresa em Bombinhas, que trata até 140 litros por segundo.

Qual será o custo dessa operação e quanto isso refletirá, na prática, ao consumidor final?

Falta de água

Levando em consideração que a Emasa nunca deixou de fornecer o contratado e entrega muito mais que o previsto, sabemos água tratada não é um problema. O problema está na distribuição.

Desde que a empresa Águas de Camboriú assumiu o fornecimento de água na cidade, poucos investimentos foram feitos em infraestrutura, se comparado ao que foi arrecadado neste período. Até hoje, boa parte da estrutura é da época da Casan. Com uma população de quase 90 mil habitantes, a empresa tem um armazenamento de apenas 5 milhões de litros de água. Destes, 4 estão no centro da cidade.

Uma questão importante que coopera com a falta de água em Camboriú é o fato da empresa não trabalhar com reservatórios para a distribuição de água. A empresa adota sistemas de boosters, que são nada menos de bombas de água. As bombas ficam vulneráveis a quedas de energia, manutenção e quando aumenta a demanda, não dão conta. Se falta luz, falta água também. Enquanto um reservatório usa nada mais que a própria gravidade para pressurizar a rede.

Sem reservatórios, a rede de água perde pressão e não chega aos pontos mais distantes ou locais mais altos. Aumenta a demanda, a pressão baixa e falta água em diversos pontos da cidade.

A própria Águas de Camboriú, em uma matéria de 2017, quando construiu dois pequenos reservatórios no Centro da Cidade, afirmou que os mesmos contribuem para manter a pressão na rede e garantir a distribuição mesmo em picos de consumo. Infelizmente a matéria foi tirada do site da empresa, mas outros veículos replicaram.
https://www.aguasdecamboriu.com.br/2017/12/21/aguas-de-camboriu-testa-2-novos-reservatorios/

Afirmar que ter um sistema próprio de tratamento vá resolver o problema de falta de água é, no mínimo, mentiroso.

Com os 15 milhões de reais que serão investidos nessa ETA, quantos reservatórios poderiam ser construídos? Não poderia ser feito um aditivo no contrato alterando esse compromisso e colocando outra condicionante no lugar?

Riscos 

Não sabemos nem se o plano diretor permite atividades industriais na região do Jardim Europa. Mas temos certeza que o local está vulnerável a alagamentos.

Colado a residências, a ETA vai tratar agua, usando produtos químicos em grande quantidade, ao lado de uma escola e uma lavoura de arroz. Alguém parou para pensar que, por exemplo, um vazamento de gás cloro pode matar? Alguém está levando em consideração estes fatores?

Como a cidade não tem coleta de esgoto, onde será despejado o refugo?
Quais os riscos do uso e armazenamento de produtos químicos próximo a uma escola e residências?
Qual o nível de ruído que a estação trará para o local?

Simplesmente entregam o terreno sem nem saber quais os riscos que a atividade pode trazer aos vizinhos? Ou, depois de cedido, vão esperar a autorização IMA de Itajaí que, PASMEM, é gerenciado hoje pela ex-secretária do meio ambiente da cidade de Camboriú?

Depende da aprovação ou já tem a aprovação como certa?

O terreno

Vale repetir que o terreno fica em um loteamento residencial, ao lado de casas e de uma futura escola.

O local que poderia dar lugar a uma creche, a um posto de saúde ou algum outro equipamento de uso coletivo e público, poderá dar lugar a uma estação de tratamento de água, que comumente é implantada mais retirada da área urbana.

O projeto de lei simplesmente cede, mas não fala se está condicionado a aprovação de órgãos ambientais. Embora eu ache que esta questão está bem alinhada pelos responsáveis.

Em resumo

Sem estar acessível a população pelo site da Câmara, o projeto de lei que tramita na Casa Legislativa corre o risco de ser “tratorado” mais uma vez pelos vereadores da situação, que atuam como uma extensão do gabinete do prefeito, fazendo as vontades do alcaide em troca de cargos na administração pública.

Sem uma real utilidade, sem uma real economia e sem fundamentos sólidos para comprovar sua real necessidade.

Enquanto isso, o Rio Camboriú recebe milhares de litros de esgoto, todos os dias.


A “quase inútil” Estação de Tratamento que querem construir em Camboriú
Poucas e Boas – Por Gian Del Sent