Os Ecochatos e o “Mundo Perfeito”

Há um certo tipo de ambientalista que quer sol na eira e chuva no nabal. Que não aceita menos do que um mundo perfeito. Um mundo com azeite barato, mas sem olivais intensivos; com carros elétricos, mas sem extração de lítio; com energias renováveis, mas sem barragens nem eólicas; com floresta, desde que seja a do Chapeuzinho Vermelho. Um mundo que não existe.

O Ecochato quer acabar com os combustíveis fósseis. Quer energia limpa, sem emissões de gases de efeito estufa. Mas não quer barragens, porque as barragens destroem ecossistemas. Não quer eólicas, porque as “hélices” estragam paisagens e perturbam os animais. Não quer energia nuclear, porque produz lixo radioativo.

O Ecochato quer florestas, porque precisamos de árvores para absorver dióxido de carbono da atmosfera. Mas quer escolher as árvores. Não quer eucaliptos, não quer floresta de produção. Quer a floresta do Chapeuzinho Vermelho, porque sempre viveu na cidade e julga que as florestas são assim. Quer dizer a cada proprietário o que pode plantar e ainda obrigá-lo a tratar do terreno, num serviço gratuito, abnegado, para benefício da “sociedade”

O Ecochato grita “ouçam os cientistas”, quando os cientistas lhe dizem o que ele quer ouvir. “Ouçam os cientistas: estamos destruindo o planeta com as alterações climáticas.” Mas, quando os mesmos cientistas dizem que “os transgênicos não fazem mal nenhum e podem ser um benefício para o ambiente e para a humanidade”, o ambientalista simplório berra: “Os cientistas estão a mando das multinacionais.

O Ecochato quer agricultura biológica, porque não gosta de “químicos”. Mas esquece-se de que tudo são químicos, do oxigênio que respira ao sulfato de cobre usado, tal como centenas de outros produtos “naturais”, na agricultura biológica. Esquece-se de que a agricultura biológica precisa de mais espaço, valioso espaço, para produzir a mesma quantidade que a agricultura convencional, e que esse espaço terá de ser ganho à custa do desmatamento.

O Ecochato quer que todos se tornem vegetarianos, ou veganos, e acabar com a produção animal. Mas ignora que sem produção animal todo o fertilizante usado para cultivar os seus vegetais terá de ser artificial, e “ai, Deus nos livre dos químicos”.

O Ecochato quer acabar com os jardins zoológicos, porque, não, os animais não podem estar em cativeiro, fechados a vida toda num espaço limitado. Mas abre uma exceção para gatos e cães (e coelhos, vá), menos animais do que os outros. Esses podem viver quase desde que nascem até ao dia em que morrem trancados num apartamento de 50 metros quadrados, que é para o bem deles.

O Ecochato é contra o desperdício alimentar. Mas não quer conservantes na comida, nem patês e nem nada que seja feito com restos de comida.

O Ecochato só cozinha com azeite, essa oitava maravilha para a saúde. Mas vocifera contra os olivais intensivos em Pinheiro Machado. Produzir azeite em grande quantidade é a única forma de baixar o preço e torná-lo acessível a todos? Os pobres que comam bolos.

O Ecochato chora a morte de cada rinoceronte e tigre. Mas defende com unhas e dentes a medicina tradicional chinesa que está por trás da perseguição a rinocerontes e tigres, para fazer pós milagrosos com os seus chifres e ossos – porque as medicinas alternativas são naturais e, lá está, o que é natural é bom (desde que não seja sal, cogumelos venenosos, arsênio, amianto, mercúrio, antraz, urtigas, malária, raios ultravioletas, etc, etc, etc).

O Ecochato faz campanhas para que se coma “fruta feia”, julgando que os agricultores mandam para o lixo tomates e maçãs que não interessam aos supermercados. Mas ignora que esses tomates e essas maçãs disformes se transformam em ketchup, sumos e outros produtos, que obviamente não são feitos com vegetais e fruta top de linha.

O Ecochato quer comer peixe. Mas não pode ser capturado no mar, porque a pesca não é sustentável, e não pode ser de piscicultura, porque tem antibióticos, e garantidamente não pode ser geneticamente modificado, porque viu um desconhecido no YouTube que dizia não sabe o quê, já não se lembra bem.

O Ecochato quer que haja mais carros elétricos nas estradas. Mas é contra a exploração de lítio, essa insustentável fonte de poluição do ar, dos solos, das águas, e escreve isso nas redes sociais, teclando furiosamente no seu smartphone com bateria de lítio.

LUÍS RIBEIRO
Jornalista

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