Parceria impulsiona qualificação da produção de pupunha em Garuva

Foto: Divulgação/Epagri
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palmito sempre foi presente na alimentação brasileira, mesmo antes da chegada dos colonizadores, mas a extração indiscriminada da palmeira juçara para fins comerciais provocou uma mudança de rumo há cerca de 20 anos, quando a espécie entrou na lista de risco de extinção e passou a ser protegida por lei. Foi neste momento que agricultores e indústria tiveram que encontrar alternativas para que a iguaria não sumisse da nossa mesa. E a pupunha se consolidou como uma das opções mais sustentáveis, principalmente porque não é preciso cortar a planta inteira, mas apenas as hastes.

No Estado, uma das cidades que mais produzem pupunha é Garuva, no litoral norte. Por lá, 68 agricultores plantam cerca de 890 hectares, que abastecem agroindústrias familiares e empresas de grande porte, que processam aproximadamente 36 mil hastes por dia. E para atender à alta demanda do produto, a Epagri, em parceria com a prefeitura, Instituto do Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), instituições de crédito e indústria, colocou em prática o Projeto Pupunha Garuva, que tem por objetivo qualificar produtores e ampliar a área plantada.

Segundo o engenheiro-agrônomo e extensionista rural de Garuva, Richard Junglaus, o projeto visa o fortalecimento do Arranjo Produtivo Local (APL) da pupunha, formando uma aliança entre os atores da cadeia produtiva. “O projeto é ancorado em três pilares: capacitação, fomento e integração. E apesar da produção expressiva de Garuva, ainda dependemos do Paraná, que responde por 60% da pupunha beneficiada no Estado. Isso porque não produzimos hastes suficientes nos meses frios, daí a necessidade de capacitar os produtores e lhes dar condições para plantar mais e com mais eficiência”, explicou.

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Para isso, foi criado um curso de capacitação técnica com a participação de especialistas e visitas à propriedades de referência, onde a adoção de novas tecnologias e boas práticas tem levado à um aumento de produtividade e qualidade da lavoura. No encontro inaugural, em abril, o engenheiro-agrônomo Onévio Zabot fez uma introdução sobre cultivo sustentável para 18 agricultores participantes.

Em maio, foi a vez do extensionista Sebastião Bellettini (IDR Paraná) fazer as atualizações técnicas sobre manejo das touceiras, sanidade vegetal, boas práticas agrícolas visando o aumento da produtividade e a qualidade da produção. À tarde, foi realizada uma visita à propriedade de Rafael Küster, onde os participantes conheceram as variedades Roraima 1 e Londrina 1, cultivares desenvolvidos numa parceria entre IDR-PR e Embrapa.

O próximo encontro acontece nesta quarta-feira, 17 de junho e é voltado à educação financeira. O curso encerra em julho abordando o processamento do palmito, agregação de valor e integração com a indústria. Ao final da jornada, os agricultores participantes poderão acessar o Fundo de Desenvolvimento Rural (FDR) de Santa Catarina, uma política pública que oferece financiamentos com juros subsidiados.

O extensionista do IDR-PR, Sebastião Belletini, orientou os agricultores sobre manejo, sanidade e boas práticas agrícolas

Adoção da pupunha mudou panorama agrícola de Garuva

Uma das participantes do curso é Luciene Silva Machado, 57, e o seu marido Remi da Silveira Costa, 63. Eles plantam 10 mil pés de pupunha e fornecem para a indústria. Ela conta que já plantou palmeira-real-australiana, mas prefere a pupunha. “É porque no caso da palmeira você corta e ela não brota mais. Na pupunha, você corta um ou dois perfilhos (hastes) e ficam cinco ou seis para a próxima colheita. Só precisa plantar uma vez, adubar a cada dois, três meses e manter limpo. É bem mais fácil”, compara.

O secretário de Agricultura de Garuva, Ladiomar Padilha Filho, disse que as visitas técnicas fazem toda a diferença porque os agricultores percebem na prática, andando pela lavoura, o desenvolvimento das plantas com mudas de melhor padrão genético. “É um trabalho excelente que está sendo realizado em parceria com a Epagri. Os agricultores estão muito felizes e ansiosos para investir nas propriedades através de projetos de fomento que já estão sendo elaborados”, afirma. “É a primeira vez que vou em um evento da Epagri. Estou gostando tanto que já me sinto uma empresária”, confirma Luciene.

Ladiomar conta que o município foi pioneiro no beneficiamento da pupunha, cultura que se tornou significativa para a economia de Garuva depois que muitos agricultores migraram da banana e do arroz para apostar na pupunha. “Em comparação com a banana, por exemplo, a pupunha pode não ser tão rentável no início, mas na ponta do lápis, acaba sendo vantajoso por causa da economia em mão de obra. É uma cultura mais simples, mais rústica de se trabalhar”, afirma.

Pupunha pode ser consumida in natura

O palmito in natura permite cortes que agregam valor ao produto como espaguete e massa de lasanha saudáveis (Foto: Reprodução/Epagri)

O engenheiro-agrônomo e pesquisador de palmáceas da Estação Experimental d a Epagri em Itajaí (EEI), Keny Mariguele, explica que outra vantagem da pupunha em relação à palmeira-real-australiana é o rendimento por haste, que varia entre 700g a 900g, enquanto a palmeira-real-australiana é de 350g a 400g. Porém, a palmeira-real-australiana pode ter o plantio mais adensado – entre 10 mil pés a 20 mil pés por hectare, enquanto que a pupunha, por causa de sua formação em perfilhos, a recomendação é de 5 mil plantas por hectare.

“Mas esta condição também tem vantagem, pois o sombreamento promovido pelas plantas na lavoura não favorece o crescimento de plantas invasoras, diminuindo a exigência da roçada e o custo de mão de obra”, acrescentou. O pesquisador lembra que a pupunha pode ser consumido in natura, pois não oxida, um produto de alto valor agregado que já figura em muitos cardápios de restaurantes de alta gastronomia.

“O maior problema em relação à pupunha é a qualidade das sementes que são utilizadas para fazer as mudas no Estado. Como a espécie é nativa da Amazônia, as plantas cultivadas em Santa Catarina acabam sofrendo com questões relacionadas à adaptação às condições climáticas locais, como, por exemplo, a ocorrência de doenças fúngicas, especialmente do solo, o que leva a uma maior taxa de reposição de plantas anualmente. Daí a importância de optar por mudas provenientes de cultivares selecionadas e adaptadas ao clima do Sul do Brasil, como as variedades desenvolvidas pela Embrapa”, recomenda.

Segundo o boletim técnico “Palmeira Pupunha: aspectos de cultivo para obtenção de palmito em SC”, que tem entre os autores o engenheiro-agrônomo e pesquisador da Epagri/Ciram, Fábio Zambonim, Garuva está entre os municípios recomendados para o plantio de pupunha por atender aos critérios edafoclimáticos que favorecem o desenvolvimento das plantas. Para cultivar pupunha é preciso que a temperatura média seja igual ou menor que 20⁰C, o acumulado de chuva seja maior ou igual a 1400 mm/ano, e a probabilidade de geada em julho seja menor ou igual a 30%. A planta começa a produzir entre 18 meses e dois anos e a colheita deve ser feita de duas a três vezes por ano.

Produção triplicou após sucessão familiar

Rafael assumiu os negócios da família com o irmão após a morte precoce do pai (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma das propriedades de referência escolhidas para a visita técnica é do produtor Rafael Küster, 31. Ele assumiu a propriedade com o irmão Rodrigo, há 14 anos, quando era apenas um adolescente, por conta da morte precoce do pai, Dorival. Na época, a família produzia pupunha em sete hectares, uma forma encontrada pelo patriarca para diversificar a produção agrícola, que tinha no arroz a principal fonte de renda, além da banana.

De lá pra cá, a área plantada de pupunha só cresceu, chegando a 25 hectares, enquanto a área de arroz encolheu para cinco hectares e a produção de banana foi abandonada. Para atender à demanda da indústria, o produtor passou a arrendar terras de terceiros em 2017. Este desempenho excepcional se deve à adoção de boas práticas de manejo, atualização técnica e arrojo para investir na produção.

Rafael recebeu os agricultores de Garuva mês passado, onde contou a história da família e mostrou práticas de manejo sustentável para controlar a broca, a principal praga da cultura. Por causa da escassez de mão de obra para pulverizar a plantação, o jovem agricultor testou a Beauveria bassiana, um fungo utilizado como inseticida biológico. “A aplicação é mais cara, mas com o tempo, o custo cai porque diminui a mão de obra”, afirma.

O produtor também faz adubação orgânica com cama de aves uma vez ao ano e aplica calcário, além das adubações periódicas, que favorecem o desenvolvimento das plantas e as tornam mais resistentes a pragas e doenças. “A gente tem palmeira produzindo com mais de 20 anos. Com o manejo correto, elas produzem mais e por mais tempo”, garante.

O relacionamento da Epagri com a família Küster vem de longa data. Em 2015, ele fez o curso de Jovens Rurais para auxiliar a mãe num projeto de plantas ornamentais. E sempre que surge uma oportunidade para reciclar seus conhecimentos nos cursos da Epagri, ele é o primeiro a se inscrever. “Eu trabalhei fora apenas um ano e percebi que o meu futuro é aqui mesmo, na propriedade. E para isso é preciso estar sempre atualizado”, acredita.

Família Korn foi pioneira em beneficiar pupunha

Uma das primeiras agroindústrias familiares a apostarem no beneficiamento próprio de pupunha em Garuva foi a KNR, fundada há 25 anos pelo patriarca Valdemar Korn e hoje tocada pelos filhos Valdir, Vanderlei e Cláudio. A empresa produz de 2 mil a 3 mil vidros de palmito por dia e emprega 15 funcionários. A matéria-prima vem da propriedade, onde são plantados 55 hectares de palmáceas. A empresa vende pupunha e palmeira real em diferentes cortes: tolete, rodela, picado, banda, rodela coração, aperitivo e picado nobre.

Claúdio, 55 anos, disse que prefere cuidar da plantação, deixando para a esposa Elaine a tarefa de lhe representar na indústria, que começou de forma modesta, há cerca de 30 anos. “Era no fundo do quintal mesmo, dentro da cozinha, a gente rotulava manualmente, era vendido de porta em porta, nas bancas na beira da BR. Ali o pessoal começou a comprar e gostar do produto e começamos a vender até em Curitiba. Depois legalizamos a produção e a indústria ganhou ainda mais mercado”, recorda.

O empresário conta que seu pai, falecido há oito anos, tinha o sonho de continuar produzindo palmito após a proibição do corte de juçara e não teve receio em adotar a pupunha. “Tinha gente que chamava a gente de louco. ‘Vocês são doidos de plantar esse troço, não é bom não’. Hoje muitos desses que falavam que não era bom, plantam e vivem da pupunha. Foi uma cultura que deu certo na nossa região”, conclui.

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