Suspeito de matar delegados da PF afirma que atirou após ser baleado e contradiz outros depoimentos

Três semanas depois do tiroteio no Estreito, região continental de Florianópolis, Nilton César Souza Junior deu sua versão dos fatos que resultaram na morte de dois delegados da Polícia Federal

No dia em que recebeu alta hospitalar e deu entrada no Presídio da Agronômica, na quarta-feira, o vendedor de cachorro-quente Nilton César Souza Junior, 36 anos, afirmou em depoimento à Polícia Civil que só atirou com sua pistola .380 depois de ser baleado. Dessa forma, diz ter agido em legítima defesa. Sua versão da troca de tiros que terminou com a morte dos delegados federais Elias Escobar, 60 anos, e Adriano Antônio Soares, 47 anos, converge em partes com trechos de alguns depoimentos, assim como é conflitante em outros.

A principal contradição é que o vendedor de cachorro-quente relata não ter ouvido os delegados se identificarem como policiais. Todas as cinco principais testemunhas ouvidas em depoimento afirmam que os delegados gritaram “polícia federal” ou ao menos “polícia” na hora da confusão. Os gritos são mencionados pelo vigilante, pelas duas mulheres e pelos dois taxistas ouvidos. Já o fato de Nilton ser assíduo na casa de prostituição para entregar lanches é confirmado pelo próprio, assim como relato das garotas de programa e de um vigilante.

Nilton permanece preso pelo menos até esta sexta-feira, quando participará de audiência de custódia no Fórum de Florianópolis, às 14h30min, para saber se continua preso preventivamente ou aguarda em liberdade. O advogado Marcos Paulo Silva dos Santos, que o defende, entrou com um pedido de revogação da prisão preventiva sob o pretexto de que seu cliente ainda não foi denunciado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). O pedido está em análise pelo MP. A seguir, trechos do depoimento desde a chegada até o tiroteio e ida ao Hospital Florianópolis, onde ficou internado por 21 dias.

Nilton, em foto na frente de seu negócio de cachorro-quente na garagem de uma revenda de carros no Estreito Foto: reprodução Facebook / reprodução

A chegada ao número 690

Acompanhado do advogado Marcos Paulo, Nilton falou ao delegado Ênio Mattos, titular da Delegacia de Homicídios da Capital, que chegou à casa de prostituição do endereço 690 da rua Fúlvio Adduci, no Estreito, por volta de 1h30min da madrugada de 31 de maio para levar lanches para as duas mulheres que moram e trabalham no local. Afirmou que elas eram clientes do Nilton Dog e também conhecidas de seus dois funcionários que estavam no local. Um deles, Patrik, não quis entrar porque estava fumando.

Campainha tocou

Nilton afirma que o acesso às quitinetes onde funciona a casa de prostituição e moram outros inquilinos é permitida somente por pessoas com autorização, já que a porta possui campainha. Ao entrar na casa, entregou às mulheres os lanches que levou e, quando estava ali esperando pelo pagamento dos cachorros-quentes, a campainha tocou e Nilton ficou onde estava. Ou seja, em local onde não pudesse ser visto da porta, “até para preservar os clientes daquele local”. Nilton relatou que sempre ficava na “área de serviço” quando a campainha da casa de prostituição tocava. Naquela madrugada, após a entrada de Escobar, Soares e o taxista que os levara, permaneceu no local até o momento em que “apareceram duas pessoas ali, forçando entrada para onde o interrogado estava”.

Diz ter sido chamado de folgado

Nilton fala que foi notado por um dos delegados – não soube especificar qual dos dois – quando estava na área de serviço. afirma que o delegado o chamou de “folgado”, ao que ele respondeu “sou de boa”. Dali, diz ter visto Escobar e Soares pedindo por cigarros e bebida alcoólica. Uma das mulheres negou. A outra, fumante, ofereceu cigarro dos seus por R$ 5. Um dos delegados então disse que era caro. Relata que ainda na área restrita, reparou que o delegado que o chamou de folgado estava com uma pistola na cintura, pois ele a todo momento levantava a blusa deixando aparecer a arma. Que chegou a pensar que se tratava de um assalto, porque ninguém tinha falado que eram policiais.

A saída para o corredor

Ao chegar na sala, Nilton diz que os delegados e um taxista ainda estavam na peça. Ele então insistiu com o amigo Thiago Gionco, 23 anos, e passaram ao lado dos policiais em direção à porta. Ao passar por eles, diz ter ouvido novamente “tu é folgado mesmo”, tendo respondido como antes, “eu sou de boa”. Que como já era conhecido da casa, abriu a porta e seguiu em direção à rua sem olhar para trás. Ao sair para o corredor, achava que Thiago estava atrás dele, e quando seguiu para a rua diz ter ouvido alguém falar “volta, volta”. Quando olhou, diz ter visto o homem que falou para ele voltar com uma arma apontada para suas costas. Nesse momento, percebeu que o outro delegado apontava a arma para as costas de seu amigo Thiago. O taxista que estava no corredor então correu para a rua.

O tiroteio

Nilton conta ter ouvido do delegado atrás de si “agora todo mundo vai morrer”, e do outro policial, que estava próximo a Thiago, a ameaça “tu vai primeiro, magrão”. No entender de Nilton, essa fala foi direcionada a Thiago. Nesse momento, Nilton diz ter visto um homem no chão e ouvido o primeiro tiro, não sabendo se quem atirou foi o que estava próximo dele ou mais distante. Que ao ouvir um segundo tiro, caiu no chão enquanto ouvia outros disparos. A essa altura, sentiu que foi atingido na perna e, deitado, sacou a pistola e efetuou dois disparos em direção ao homem que estava ao seu lado. Este, então, parou de atirar. Nilton se levantou e começou a ouvir novos tiros. Se dirigiu a porta de entrada da casa (aos fundos do corredor) para procurar abrigo, mas seguiu recebendo tiros, e aí conta ter sido baleado na mão.

Diz que a arma engasgou

Após o disparo na mão, Nilton afirma que sua arma deu pane. Bateu nela tentando resolver e foi quando conseguiu realizar novos disparos em direção à porta da rua, com intenção de fazer cessar os tiros que vinham de lá. Não se recorda se efetuou ao todo quatro ou cinco tiros.

A ida ao hospital

Depois de dar o último tiro e com o fim dos estampidos, percebeu que seu amigo Thiago estava no canto da parede, no fundo do corredor, ao lado da porta da casa. Pediu para ele então o levar ao hospital porque viu que estava sangrando. Ao chegar no carro, já acomodado, afirma ter dado falta de sua arma e pediu que Thiago a buscasse. Seu funcionário fez isso e Nilton diz não ter mais se preocupado com a pistola, mas sim com seu estado de saúde. Que foi para o Hospital Florianópolis e de lá só saiu na quarta-feira, dia em que prestou o depoimento ao delegado Ênio Mattos.

Não possui porte

Nilton admitiu que não tem porte de arma de fogo. Mas possui uma guia de tráfego que permite andar com a arma de casa até o estande de tiro em que praticava, em São José. Disse que estava com a arma naquele dia porque pretendia praticar tiro ao alvo no clube, mas devido a contratempos no comércio de cachorros-quentes, não conseguiu chegar.

 

Fonte: A Hora de Santa Catarina

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