A vida imita a arte: As viagens de Élcio Kuhnen

“Ética e Vergonha na Cara” é um livro escrito pelos gigantes Clóvis de Barros e Mário Sergio Cortella em 2015, onde conta um pouco das discrepâncias que existem entre o que a nossa sociedade prega e o que, de fato, vive.

O livro seria indicadíssimo ao prefeito de Camboriú, Elcio Kuhnen (MDB), que não prega o que fala e não tem vergonha alguma disso.

O título desta coluna fala de “viagem”. Eu poderia até falar do “AMFRI Tour 2021” em que os prefeitos foram para Barcelona para um congresso de 3 dias, mas se licenciando por 9. Elcio Kuhnen, em específico, está mordendo mais de R$ 19.300,00 em diárias pagas com recursos públicos. Isso sem contar o custo com as passagens aéreas que deve ter ficado entre 8 e 10 mil. Infelizmente o Portal da Transparência não detalha isso.

Viajando

Mas a viagem que vou falar, não é a física, mas sim a mental. Élcio é o campeão em “viajar na maionese” como dizíamos nos anos 90. É claro que a falta de ética do prefeito em alguns assuntos, como diz o livro, também tem um pouco de falta de vergonha na cara.

A bola da vez está na construção de um “novo” hospital para Camboriú. Não, eu não estou brincando. É sério.

Um comissionado soltou em um grupo que o prefeito estaria conseguindo uma verba de 70 milhões para a construção de um novo hospital em Camboriú, no Bairro Tabuleiro. Eu fui atrás.

O Terreno

Para minha enorme surpresa , encontrei um decreto do dia 15 de outubro declarando uma área como de utilidade pública para a construção do “Novo Hospital Público” de Camboriú. Um terreno de 3500m2 na Rua Licurana, no Bairro Tabuleiro. São 7 lotes pertencentes a empresa G-Laffite (aquela da Terra Prometida), no loteamento Santa Regina II.

Para os leitores entenderem melhor, é o finalzinho da rua, no pé do morro, no final daquele enorme terreno que tem na Rua Licurana. Embora o decreto diga que é uma área plana, na verdade é uma descida bem grandinha.

O mais interessante é que o tamanho do terreno para o tal “Hospital Público” é da metade do tamanho do Hospital Cirúrgico (ou Edwiges Bernardes se preferirem). O terreno é pouca coisa maior que aquele onde funciona a UPA que nunca foi UPA lá no bairro. Ou para ficar mais claro ainda, é a metade do tamanho de um campo de futebol oficial.

Beeeem pertinho, cerca de 600 metros, da casa do próprio prefeito Élcio.

Novo Hospital?

Mesmo sem cumprir a promessa de “abrir” o Hospital de Camboriú, Élcio começou com a história de construir um novo. Para deixar claro, o Hospital de Camboriú não foi aberto. Ele funciona como um Hospital Cirúrgico, que só funciona se tiver cirurgias eletivas agendadas pelo Estado para ele. Não funciona como um Hospital, portanto, nunca “abriu”. Até mesmo os números de cirurgias divulgadas são duvidosas.

Procurando um pouco mais, encontrei duas postagens no Facebook. Uma da bancada do MDB na ALESC e outra do deputado Volnei Weber (MDB). Na postagem, uma foto do deputado, do prefeito Élcio e do secretário de Estado da Casa Civil, Eron Giordani.

O assunto da reunião, na postagem do MDB, seria a construção de um Hospital Municipal em Camboriú, com projeto orçado em 70 milhões de reais. E um sistema binário ligando o centro de Camboriú até a BR-101 no valor de 30 milhões de reais.

Projeto orçado em 70 milhões? Já tem projeto para um “novo” Hospital? Onde está? Quem fez?

A postagem do Deputado Volnei Weber foi mais ousada, mas ele editou depois e tirou a parte que falava do Hospital, deixando só a parte da mobilidade. Mas como o Facebook mantem o histórico de edições, a gente pode ver que o deputado deu como “garantida” a verba para a construção do tal “novo” hospital.

Na edição, ele tirou toda a parte que fala do Hospital, falando apenas de um “anel binário”.

E AÍ?

Quase 5 anos se passaram desde que Élcio assumiu como prefeito pela primeira vez em janeiro de 2017, e não abriu o Hospital para atendimento ao público por um simples motivo. Não tem dinheiro.

O custo para abrir as portas do Hospital de Camboriú é de mais de 20 milhões de reais por ano. Isso é praticamente 10% da arrecadação total do município e completamente fora de cogitação, seja o prefeito que for.

O prédio do Hospital de Camboriú é da prefeitura. Se a Fundação que administrava o local fez besteira e tem dívidas, é problema deles com o CNPJ deles. O prédio é da prefeitura, tanto é que ela tomou de volta. Mas abrir as portas, o buraco é mais embaixo.

Agora vem esse papo de construir um “novo hospital”?

Calma lá! 

Primeiro que em um terreno de 3500m2 não dá para fazer muita coisa, muito menos um hospital do porte que estão querendo.

O decreto diz: “mediante pactuação com o Governo do Estado de Santa Catarina para atendimento de saúde em âmbito regional, com atendimento de média e alta complexidade nos níveis secundário e terciário de atenção à saúde”. Isso é um hospital equivalente a Ruth Cardoso e Marieta. Com recursos do governo do Estado? Ele vai ajudar a bancar o custo mensal?

Porque não investe este dinheiro na ampliação do atual hospital e transforma ele em regional?

Recebi a informação ainda que o loteamento está embargado pela justiça há muito tempo. Tanto que não tem nada construído lá. Existe um rolo entre a loteadora e os herdeiros do terreno. Ai eu pergunto: Como que declara utilidade pública os terrenos que estão enrolados? Pior que o decreto cita como “proprietária” a loteadora que, pelo que parece, ainda não é dona de fato.

Estranho!

O prefeito que adora uma postagem nas redes sociais, não postou nada sobre o assunto. Nunca foi apresentado projeto algum de um hospital. Nem mesmo os funcionários da prefeitura sabem do assunto.

Tudo isso só começou a acontecer depois que o prefeito se tornou réu em uma ação civil pública por improbidade administrativa, aberta pelo Ministério Público, por não cumprir uma decisão judicial de 2020, que mandava Camboriú e cidades vizinhas, em conjunto com o Estado de SC, resolver a situação do atendimento hospitalar da região da AMFRI que hoje é absorvida pelo Ruth Cardoso e pelo Marieta.

A minha opinião, bem no estilo teoria da conspiração, é a seguinte:

O decreto de utilidade pública dos lotes foi publicado 15 dias após o prefeito ser citado no processo, depois que a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público contra o alcaide. O local “escolhido” foi justamente em um loteamento embargado e que não há previsão de liberar e muito menos ocupar. Logo, tem tempo para “pagar”.

Tanto o Município de Camboriú quanto o Estado de Santa Catarina, devem explicações para a justiça sobre o não cumprimento da decisão judicial. Assim como os outros municípios da AMFRI.

Um decreto de um terreno quase inútil para este fim, uma reunião devidamente publicada, uma “proposta” apresentada, é um prato cheio na defesa do Estado e do Município na justiça. Ainda mais que o governo do Estado está abraçadinho com o MDB, partido de Élcio.

O Hospital de Camboriú tem espaço para ampliação, ao lado tem um terreno baldio para desapropriar. Com os “supostos” 70 milhões de reais garantidos pelo Estado, daria para dar uma boa garibada, não dá?

Não acredito nessa história. Afinal, condenado a repassar 2 milhões por mês para o custeio do Ruth Cardoso, o Estado recorreu e baixou para 1. A alegação foi não ter dinheiro.

E para finalizar. Se o Estado coloca dinheiro no Marieta, porque não coloca em Camboriú?

Acredito ser mais um “migué” com a ajuda de um deputado de pouca expressão e o Estado, para ter o que explicar para a justiça, após mais de um ano de inércia na solução do problema do Ruth Cardoso.


A vida imita a arte: As viagens de Élcio Kuhnen
Poucas e Boas – Por Gian Del Sent