Balneário Camboriú desenvolve um trabalho ativo de acolhimento e cuidado com pessoas em situação de rua com dependência crônica de álcool e drogas. No final de 2025, a Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Assistência Social, Mulher e Família, implementou o programa Resgate a Vida BC, que oferece tratamento e reinserção social, possibilitando novos recomeços e mudanças de vida.
Desde o início do programa, já foram atendidas 55 pessoas. Dessas, 31 foram internadas involuntariamente – com respeito às leis, à dignidade e à integridade das pessoas em situação de rua usuárias de drogas – e 24 voluntariamente.
“O programa tem uma importância muito forte. Desde que foi iniciado, trouxe e está trazendo resultados em poucos meses. Isso tem trazido um benefício para a cidade, para as famílias e para os usuários de drogas que estavam em situação de rua e começaram a ser tratados como seres humanos, e não apenas como números. Hoje, o Resgate a Vida BC muda a vida das pessoas e retira-as das ruas efetivamente”, destacou o secretário de Assistência Social, Mulher e Família, Dão Koeddermann.
Novos recomeços
O programa devolve esperança e mais uma chance de recomeço para as pessoas atendidas. Uma delas é D.M, de 44 anos, que há cerca de cinco anos vivia nas ruas devido ao uso de drogas, desencadeado após o falecimento da mãe por Covid-19.
Antes de desenvolver dependência química, D.M trabalhava como cabeleireiro em um salão em Curitiba, era casado e tinha uma vida feliz com a família. Tudo mudou quando perdeu a mãe, se separou da esposa e ficou psicologicamente abalado.
“Tirei minha mãe do hospital dentro de um vaso, e isso me afetou muito. Eu não tinha mais estrutura psicológica. Eu não queria mais voltar para a sociedade, para mim, tinha acabado meu vínculo com as pessoas”, comentou.
A situação de D.M chegou a um ponto crítico, em que ele se colocava em risco e também as pessoas ao redor. Devido à sua condição, ele foi internado involuntariamente em abril deste ano. Desde então, segue em acolhimento e monitoramento pelas equipes multiprofissionais.
“A minha cabeça ainda não estava preparada, porém, todo dia fomos trabalhando um pouco e hoje eu tenho a expectativa de voltar a ter a mente sã, de ter um recomeço, uma nova vida com a minha filha, que não vejo há cinco anos”, disse.
Para D.M, retomar o vínculo com a filha é algo que espera muito. Ele já falou com a jovem, de 15 anos, por telefone, e agora aguarda poder reencontrá-la pessoalmente. “Essa é uma ponte, um braço forte para eu poder ficar bem, por saber que ainda existe alguém na sociedade por quem tenho carinho, amor e atenção, e isso faz diferença no tratamento”, finalizou.
A busca por ajuda
A vontade de recomeçar também motivou o jovem E.M, de 25 anos, a procurar ajuda no programa Resgate a Vida BC. De forma voluntária, ele foi acolhido em uma das instituições credenciadas, e já retornou ao convívio com a família.
Por uma década, entre altos e baixos, o jovem do Rio Grande do Sul fez uso de vários entorpecentes, algo que não apenas o feriu emocionalmente, mas também as pessoas que ama. “Deixei muita coisa de lado, machuquei, menti para muitas pessoas para fazer o uso de drogas. Tenho tentado, tenho me rendido diariamente para não retornar a isso”.
A ânsia de voltar a viver foi o que lhe deu ânimo para mudar, buscar ajuda e fazer o tratamento. E.M trabalha para romper definitivamente seu relacionamento com as drogas.
“Foram 10 anos de um relacionamento tóxico, não só fisicamente, mas também mentalmente e espiritualmente. O meu relacionamento com a droga não destrói só a mim, mas destrói tudo ao meu redor, é como se fosse um vírus que vai corrompendo, que vai levando, matando tudo”, comentou.
O apoio da família foi o que motivou E.M a procurar ajuda. Seu pai também teve histórico de uso de drogas, mas há 15 anos conseguiu superar a dependência e inspira o filho a fazer o mesmo. Ao ver a situação em que estava, o jovem sentiu a urgência de sair do fundo do poço e mudar de vida.
“Esse cara não sou eu, esse cara nunca fui eu. Independente do que eu fizesse, nunca fui assim, sabe? Então abri os olhos e comecei a me frustrar, e falei ‘não, eu preciso dar um ponto final nisso, terminar de uma forma ruim ou terminar de uma forma boa’. Foi onde eu recorri à ajuda diretamente com meu pai, e foi quando a gente encontrou o Resgate a Vida BC”.
Para o futuro, E.M espera melhorar os aspectos físicos, psicológicos, espirituais e financeiros. “Todos esses degraus, por mais que sejam básicos, foram retirados durante esses 10 anos de uso. Por enquanto, o simples pra mim está bom”, disse.
Rede de apoio
A família e amigos das pessoas em situação de rua veem o projeto como uma oportunidade de ajudar aqueles que amam a superar a dependência química. Essa é a realidade de A.S, amigo de K.D, que voltou a ser internada involuntariamente neste mês de junho.
Morador de Balneário Camboriú, ele estava trabalhando quando conheceu a mulher e, a princípio, não percebeu que ela era dependente química. “Quando comecei a conversar com ela, no decorrer dos dias, percebi que era usuária de drogas. Consegui convencê-la a ir para uma clínica e consegui contato com sua família”, comentou.
K.D estava em situação de rua há cerca de cinco anos até ser atendida pelo programa Resgate a Vida BC. Há praticamente dois anos, A.S tenta ajudá-la a se recuperar para voltar ao convívio da família e dos filhos.
“Eu espero que ela consiga recomeçar, pois é uma pessoa maravilhosa, alguém especial. Ela precisa dessa internação, para se recuperar antes de retornar para a casa”, disse.
Ao falar de sua história com K.D, ele lembrou de uma carta deixada por ela, para ser aberta depois de um ano. “Essa cartinha estava aberta, não sei se ela acabou abrindo antes, mas nela ela contava que desejava estar com a família daqui um ano, bem com seus filhos, casada e com uma vida próspera. Não falta muita coisa pra ela conseguir isso, precisa vencer esse vício, porque o resto ela tem – o apoio de sua família e dos filhos”, comentou.
De volta à sociedade
A psicóloga Cleidinara Käfer, criadora e responsável técnica pelo Resgate a Vida BC, comenta que o programa já conta com alguns casos de reinserção na sociedade, como o de R.B, de 32 anos, atendido pelo programa desde janeiro deste ano. Neste momento, ele está reintegrado ao mercado de trabalho, mas segue sendo acompanhado pela equipe.
“Ele foi uma internação voluntária, sendo encaminhado para casa de passagem. Desde então, o programa o acompanha semanalmente neste local. Ele nos contou que era autônomo na construção civil, atuando como pedreiro, e que tinha vontade de retornar ao seu ofício para conseguir seu próprio dinheiro e reconstruir sua vida”, contou.
Ao saber desse interesse do acolhido, a equipe passou a trabalhar principalmente as questões psicológicas e psiquiátricas dele, para que entendesse quais são os gatilhos que o levam à recaída.
“Porque ao retornar para o mercado de trabalho, sociedade, família, os gatilhos estão presentes em todos os momentos. A gente está falando de gatilhos visuais, auditivos, sensitivos e emocionais. É uma série de fatores que precisamos trabalhar antes de dar esse primeiro passo de volta para as ruas”, enfatizou Cleidinara.
Os profissionais reforçam com os acolhidos para que sempre busquem o programa ao invés de buscarem pelo vício, se colocando à disposição para sempre ajudá-los.
“O R.B conseguiu esse atendimento, conseguiu identificar seus gatilhos e, aos pouquinhos, voltou a trabalhar. De cinco dias da semana, saiu um, deu certo, na próxima semana foi dois dias, e assim por diante. Ele foi gradualmente olhando para o mundo de novo, entendendo o que consegue dar conta nas suas questões psicológicas”, disse.
Hoje, R.B segue trabalhando de forma autônoma, e o programa continua o acompanhamento. No momento em que receber seu primeiro salário, que conseguir alugar um local, a equipe vai acompanhar cada passo.
“Ele só vai ser desligado do programa quando a gente realmente perceber que ele está bem estabilizado, e então ele será encaminhado para os serviços públicos do município”, explicou Cleidinara.
Sobre o programa
O programa Resgate a Vida BC trabalha em parceria com o Serviço Especializado de Abordagem Social do município, e conta com uma equipe de oito profissionais, composta por médico-psiquiatra, enfermeira, psicóloga, assistente social, responsável técnica, educadores e motorista.
A atuação é realizada de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, com pessoas que estão em situação de rua, que fazem o uso crônico de álcool e drogas. Elas são levadas para as casas de passagens credenciadas, onde é feito todo o trabalho da equipe multiprofissional, sendo realizadas visitas sistemáticas organizadas. Cada pessoa possui um plano de atendimento individual, onde são analisadas e verificadas todas as questões específicas.



